os corpos já estavam exaustos e possuíam ritmo uníssono quando, sob a luz dos refletores, ele veio para somar ao suor. chegou e pensei “agora não terei como fugir” mas analisando bem “parece que o destino está nos desafiando e eu adoro desafios” conclui.
decidimos esfregar-nos, juntos aos outros, e misturar sabores, algo como alquimia ou coisa assim. me olhava com olhos de “me olhe nos olhos” enquanto os meus, calejados dessa porra toda que dura há quase ano, procuravam outros olhares. cantava em meu rosto músicas que outrora fariam todo sentido se neste momento já não estivesse farto de toda sua poesia.
algumas poesias cansam se não forem mais do que poetizadas.
desaforos à parte, mais uma vez, estávamos juntos e os desejos em dissintonia.
– tome água – disse-lhe, estendendo a garrafa. tomou e em seguida foi aos quengos d’outros. vi de relance mas sem observar, pois não sou burro nem nada, o quão lubrificada sua garganta poderia estar às línguas da praça.
– o que vocês estão procurando? – perguntou, me fazendo levantar o rosto e o corpo curvado ao chão.
– algo que tenha valor – respondi, sem perceber que a frase se aplicava além da gincana que antes eu tivera proposto a um amigo.
a má notícia é que o carnaval continuou intacto. “e o teu?” pensei em perguntar enquanto ainda de relance o via esmirrar-se.
quando o táxi que o levou partiu e me deixou só com a rua e os confetes senti um aperto forte de culpa no peito. mas passou bem rápido. mais rápido que a chegada do novo bloco.
nem sei se sonhei ou se de fato o vi nesse carnaval.