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para lavar o mar

dias atrás o mar entrou na cidade. lavando algumas calçadas, trazendo quilos de areias do oriente, alertando para o breve futuro fúnebre. foi graças ao mar ter entrado na cidade que eu e ele nos conhecemos. estava eu, boiando dentro do mar, como cotidianamente faço em terra firme, quando ele chegou narrando suas histórias, lutando contra as ondas, contando que pintava águas-vivas de rosa e verde.
- rosa e verde? e pode? questionei.
- é. depois eu prego no aquário da minha tia para assustar os peixes.
disse que quando o mar entrou na cidade ele entrou no mar para recuperar os patins da aline, para quem ele trabalhava. enquanto o mar estava dentro da cidade e ele dentro do mar, ninguém mais tinha coragem de entrar para recolhe-los: nem a aline, dona dos patins. e ele sozinho os recuperou.
no outro dia, depois do mar ter ido embora para longe, ainda haviam patins na areia. ele os recolheu para que a aline não tivesse maiores prejuízos:
- cada patins custa quinhentos mil reais.
foi o que me disse quando nos conhecemos, depois que o mar já tinha retornado e éramos apenas um lucas e um renan boiando dias depois do mar revolto.
- quantos anos você tem? perguntei.
- nove e você?
- vinte e dois.
as ondas levaram o renan para outras amizades.
boiei alguns instantes junto a todas as águas-vivas, patins, alines e renans que no mar já boiaram, desde o princípio de tudo.
quando sai já era outro. e este outro, que hoje caminha em bairros boêmios cheios de luto, tem se preparado de mansinho para as voltas dos mares revoltos e renans à beira-mar.
por esses dias, o mar e as mortes nos disseram: a cidade está viva.

[12/03/2018]
5 são dias: para lavar o mar dias atrás o mar entrou na cidade. lavando algumas calçadas, trazendo quilos de areias do oriente, alertando para o breve futuro fúnebre. fo...
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