enquanto uma profusão de passado desaba sobre as cabeças,
lembro de existir um proverbio chinês que diz que
nossos quereres se comparam à crianças pequenas
por se tornarem exigentes quando cedemos.
pouco se sabe, mas enquanto a gente finge que as crianças
não choram, nossos desejos se acumulam
em glândulas acima dos olhos
e lutam para não escapar em pequenas doses.
quando não sabemos dar nome às coisas
ou encaixá-las nos lugares que adultos criaram
a língua trêmula e balbucia algumas palavras tortas
que nada dizem mas que dizem tudo.
a gente se esquece, mas as crianças conversam em silêncio
e apesar da gritaria dos parques em que se encontram
- isso quando há parques porque moram em cidades devastadas -
elas só não escutam aquilo que não querem ouvir.
algumas crianças não sabem que são
educadas à desejar de forma frouxa
pequenos buracos e formas geométricas:
por isso elas nem se importam.
eu, quando percebo que sou criança
- são raros os momentos que não -
finjo que caminho firme como soldado
ao invés de engatinhar segurando as calçadas.
e então dou adeus à marchar
acreditando estar tudo sob controle,
fingindo aptidão para continuar a jogar,
enquanto escorre catarro quente do meu nariz.