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dança dos afetos ou breve relato interplanetário

já havíamos nos visto durante outros dias e conversado pouco sobre a vida mas a essa altura do carnaval meu corpo pulsava de ansiedade em busca de algo que o pertencia. tinha em mim uma vontade de segurar pelo braço e sair percorrendo todas as ruas da cidade cantando alguma música cearense com minha voz que é grossa sim igual a sua que um mundo dentro de mim queria romper algumas barreiras que você me cheira liberdade mas o que a exatidão do momento me deu foi um "vamos dançar?".
— lá? —, apontando para a caixa de som. — muito barulho.
olhou para mim e confirmou que os breves silêncios são os que sustentam o mundo.
— mas vamos —, disse algo assim, não lembro ao certo; euforia na alma deixa a gente mais surdo que som alto.
não sei quem dançava mais: eu, ele ou o chão.
o aleatório do mundo decidiu dançar com a gente e no espaço formado entre nossos corpos separados havia centenas de afetos que deu combustível para criação de vida. uma legião de demônios dançou também.
parei a dança e olhei aquele rosto. era tudo dele: as retinas que me refletiam o suor a pele a roupa tirada o vapor saindo do fogão a campainha à tocar os sapatos espalhados pelo chão a bicicleta lá fora as escovas úmidas o abajur ligado as caixas de som alto a casca bruta e delicada. quis dizer que "tem tanto mar no teu" ou "carrega contigo tanto silêncio que eu não" ou "aprendi a gostar de belchior depois que você me" mas o corpo repeliu a voz que virou tônus muscular. fomos o infinito.
dançávamos muito e talvez estejamos dançando até hoje sem saber.
e todas aquelas pessoas indiretamente afetadas também.
quis convidá-lo para dançar à sombra do universo mas sumiu.

há de haver o dia em que nos alinharemos em algum cosmo.
5 são dias: dança dos afetos ou breve relato interplanetário já havíamos nos visto durante outros dias e conversado pouco sobre a vida mas a essa altura do carnaval meu corpo pulsava de ansiedade em bu...
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